Resistência aos antibióticos - Um problema de Saúde Pública?

A resistência aos antibióticos é um dos maiores desafios de saúde pública, a nível global, que iremos viver nos próximos anos, com consequências potencialmente dramáticas para a saúde e para a economia. [1] Atualmente, na união europeia, estima-se que a cada ano a resistência aos antimicrobianos (RA) seja responsável por cerca de 33.000 óbitos, representando um esforço financeiro para os serviços de saúde de 1.1 mil milhões de euros. Segundo as previsões da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), para o período 2015-2050, caso não se apliquem medidas eficazes, poderão morrer cerca de 2,4 milhões de pessoas na Europa, América do Norte e Austrália, devido à RA, com custos de 3,5 mil milhões de dólares por ano, para os serviços de saúde dos 33 países incluídos na análise. [1] A nível global, serão cerca de 10 milhões de vidas perdidas. [2]


A RA ocorre naturalmente por meio de alterações genéticas, traduzindo a capacidade de adaptação das bactérias, de forma a garantir a sua sobrevivência. Contudo, o uso excessivo e inadequado dos antibióticos na medicina, agricultura, aquacultura e indústria alimentar é responsável pela aceleração desse processo natural. [3] Considera-se que as estações de tratamento de águas residuais e os esgotos urbanos, bem como o ambiente natural, desempenham um papel importante na disseminação da RA. Assim, a interdependência dos habitats humano e animal e o ambiente podem contribuir para o surgimento, evolução e disseminação da resistência aos antibióticos, colocando em risco a saúde humana, [4,5] justificando a abordagem deste problema segundo o conceito One Health (figura).





Desde 2001 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem vindo a instituir medidas globais de controlo das RA salientando-se a vigilância da resistência, a educação dos prescritores, dos profissionais de saúde e do grande público e a regulamentação da promoção de antibióticos pela indústria farmacêutica. [6] Por outro lado, a 21 de setembro de 2016, na assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), os líderes mundiais comprometeram-se a lutar contra a resistência microbiana, atuando nas áreas da saúde humana, animal e na agricultura. [7]


Em Portugal, o combate à resistência aos antimicrobianos é uma prioridade nacional, plasmada no Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA), desde 2013, e alinhada com a Estratégia Nacional para a Qualidade na Saúde 2015-2020 e com o Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2015-2020. Em 2017, apenas 14,3% dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) e 66% dos hospitais do SNS tinham um Programa de Apoio à Prescrição de Antibióticos (PAPA). [8] Um PAPA, em cuidados de saúde primários (CSP), exige um trabalho integrador de várias fontes de informação, já que, contrariamente ao que se passa nos hospitais, nos CSP os doentes estão no domicílio, os médicos não têm acesso a antibiogramas em tempo útil, sendo a antibioterapia maioritariamente empírica, não sendo exequível alterar a terapêutica após a prescrição.


As medidas globais de controlo da resistência microbiana, instituídas pela OMS, serão suportadas, sobretudo, por planeamento de ações que na sua totalidade se integram nas competências de um médico de saúde pública e, como tal, deverão constar nas atividades programadas das Unidades de Saúde Pública, que poderá ser formalizado através de um PAPA.

A equipa multidisciplinar do GCL (Grupo Coordenador Local) do PPCIRA do ACES Pinhal Litoral, é coordenada por um médico de saúde pública, e tem desenvolvido, desde há alguns anos, um PAPA para o ACES, que se apoia em três estratégias:


i) Capacitação dos prescritores, através da formação específica em antibioterapia, com distribuição de material didático e discussão de Normas de Orientação Clínica (NOC), no âmbito da Unidade Funcional da qualidade em saúde de Leiria, em parceria entre o ACES Pinhal Litoral, ACES Oeste Norte e Centro Hospitalar de Leiria;


ii) Incremento da literacia dos utentes e comunidade, envolvendo as farmácias da região, para distribuição de material didático, bem como a comunicação social. A formação dos alunos em sala de aula, também é uma intervenção interessante, pois nesse contexto torna-se possível medir o conhecimento pré e pós formação;


iii) Monitorização regular do consumo de antibióticos, por unidade funcional, e discussão dos resultados no âmbito das reuniões de serviço.


iv) Realização de auditorias interpares relativas ao cumprimento das boas práticas em antibioterapia, tendo por base as NOC;


v) Elaboração das cartas microbiológicas locais, especificamente para as infeções do trato urinário, pois são as infeções bacterianas mais frequentes em cuidados de saúde primários. As cartas microbiológicas atualizadas permitem a prescrição empírica mais segura.


O combate à resistência microbiana em CSP, através do PAPA, é um bom exemplo das áreas em que um médico de saúde pública pode aplicar em pleno as suas competências, já que neste âmbito pode identificar, vigiar e monitorizar um fenómeno capaz de fazer perigar a saúde da população e indicar/aplicar as respetivas medidas de prevenção e controlo, utilizando a melhor evidência científica disponível. Em suma, a resistência aos antibióticos é, sem dúvida, um problema de saúde pública atual, e uma oportunidade ímpar para a especialidade de saúde pública, que não poderemos perder.




Rui Passadouro

Médico de Saúde Publica

USP Pinhal Litoral – Leiria







Referências Bibliográficas


1. OECD. Stemming the Superbug Tide: Just a Few Dollars More. OECD; 2018. doi:10.1787/9789264307599-EN

2. O’Neill J. Tackling drug-resistant infections globally: final report and recommendations.; 2016. https://amr-review.org/sites/default/files/160518_Final paper_with cover.pdf. Acedido Outubro 5, 2021.

3. Medina E, Pieper D. Tackling Threats and Future Problems of Multidrug-Resistant Bacteria. Curr Top Microbiol Immunol. 2016;398:3–33. doi:10.1007/82_2016_492

4. Yadav S, Kapley A. Antibiotic resistance: Global health crisis and metagenomics. Biotechnol Reports. 2021;29:e00604. doi:10.1016/J.BTRE.2021.E00604

5. Hernando-Amado S, Coque TM, Baquero F, Martínez JL. Defining and combating antibiotic resistance from One Health and Global Health perspectives. Nat Microbiol. 2019;4(9):1432–1442. doi:10.1038/S41564-019-0503-9

6. World Health Organization. The evolving threat of antimicrobial resistance : options for action. 2012:ix, 119 p.

7. IACG. No time to wait: securing the future from drug-resistant infections report to the secretary-general of the united nations.; 2019. https://www.who.int/docs/default-source/documents/no-time-to-wait-securing-the-future-from-drug-resistant-infections-en.pdfsfvrsn=5b424d7_6. Acedido Outubro 2, 2021.

8. PPCIRA. Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos.; 2017. http://hdl.handle.net/10400.26/22532. Acedido Outubro 1, 2021.

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