Atlas da Mortalidade por Cancro em Portugal e Espanha

O Dia Mundial de Luta Contra o Cancro celebra-se anualmente no dia 4 de fevereiro. Em Portugal os tumores malignos são a segunda causa de morte. No âmbito deste problema de saúde publica, está atualmente sobre consulta pública até ao dia 22 de fevereiro de 2022 o Plano Europeu de Luta Contra o Cancro.

Foi lançado recentemente também o Atlas da Mortalidade por Cancro em Portugal e Espanha, pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e o Instituto de Saúde Carlos III (ISCIII) que analisa a distribuição geográfica da mortalidade por alguns dos principais cancros na Península Ibérica. Esta análise permite a identificar áreas geográficas onde estudos sobre a etiologia e identificação de fatores de risco são necessários. Os resultados deste atlas poderão dar contributos para a atualização das orientações sob consulta.


Os dados analisados foram recolhidos pelos institutos de estatística de cada um dos países e utilizam a classificação Internacional das doenças -10ª revisão (ICD10). Note-se que os riscos relativos analisados, dizem respeito ao risco de morte e correspondem ao período de 2003-2012.


Quadro 1. Posições relativas que cada tipo de cancro ocupa em termos de incidência e mortalidade, no ano de 2018 e para as áreas da Península Ibérica com maior risco relativo de mortalidade por doença durante o período 2003-2012.

Apesar de no conjunto homem-mulher o cancro colorretal ter incidência superior quando comparado com outros tipos de cancro, o cancro da próstata é o mais frequente no homem e o cancro da mama é o mais frequente na mulher. O cancro com maior mortalidade na Península Ibérica, na Europa e no Mundo é o cancro do pulmão.


Tanto em Portugal como em Espanha, o cancro mais diagnosticado é o cancro colorretal. O mesmo não se passa na Europa, em que este é o segundo tipo de cancro mais frequente, nem no nível global, em que é o terceiro. Embora este seja o cancro mais frequente, não é o responsável pela maior mortalidade, sendo em ambos os países a segunda causa de morte por cancro, com sobrevivência relativa a 5 anos igual ou superior a 55%.


Geograficamente observa-se um risco relativo de morte pelo cancro colorretal superior nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), Alentejo Central, que se estendem a determinados municípios da região espanhola da Extremadura e interior centro de Portugal (correspondendo à zona da Serra da Estrela). A população residente nestas áreas geográficas tem uma probabilidade 10% a 30% superior de morrer por cancro colorretal. No concelho de Beja e Montemor-o-Novo, a probabilidade chega a ser 30% a 50% superior. As diferenças observadas podem ser parcialmente explicadas pelo consumo aumentado de tabaco, álcool e carnes vermelhas e processadas.


O risco relativo de morte por cancro da mama na mulher é mais alto na região sul da Península Ibérica, existindo um claro contraste abaixo da zona centro de Portugal continental. risco relativo de morte aumentado na região de LVT, Alentejo, Algarve, mas também na Extremadura e região oeste da Andaluzia. O padrão descrito parece apontar para fatores genéticos ou ambientais como fatores de risco na génese das diferenças de distribuição do cancro da mama.


Há dois tipos de tumores malignos em que o risco relativo de morte é claramente superior em Portugal do que em Espanha: cancro da próstata e o cancro gástrico.


Figura 1- Tumores malignos com risco relativo de morte elevado em toda a extensão de Portugal Continental, comparativamente com o restante território Ibérico. Adaptado de: 2021. Atlas of Cancer Mortality in Portugal and Spain 2003–2012. pp.1-67.


Tanto em Portugal como em Espanha, o cancro da próstata é o mais frequente no homem e a terceira principal causa de morte por cancro. O cancro da próstata destaca-se positivamente por apresentar uma sobrevida relativa a 5 anos superior a 84%. Em Espanha, o risco relativo de morte apresenta valores inferiores a 1 em praticamente todo o território à exceção de pequenas áreas na Galiza, que potencialmente representam a influência de fatores genéticos que se estendem entre fronteiras de territórios contíguos. Relativamente a fatores carcinogénicos, o cancro da próstata é um dos poucos tumores malignos para os quais a “International Agency for Research on Cancer” não estabeleceu nenhum agente carcinogénico por ausência de evidência inequívoca.


O cancro gástrico é o 8º cancro mais comumente diagnosticado na Europa, o 9º em Espanha e o 5º em Portugal. Também a taxa de mortalidade padronizada (TMP) para a idade é superior em Portugal (TMP sexo masculino = 17,4) do que em Espanha (TMP sexo masculino = 9,5) e do que na Europa (TMP sexo masculino = 12,6), sugerindo a presença de fatores de risco ambientais associados a Portugal continental. São poucas as áreas do território português que não apresentam a um risco relativo de morte superior a 1. Pelo contrário, em Espanha, as áreas que apresentam um maior risco relativo de morte localizam-se junto à fronteira com Portugal, nomeadamente na Galiza e Astúrias. O fator de risco melhor estabelecido para cancro gástrico é a presença de infeção por Helicobacter pylori, mais prevalente em Portugal, relacionado com o consumo de produtos alimentares fumados e conservados em sal.


Os cancros do pulmão, bexiga e laringe têm em comum o fator de risco exposição ao fumo quer do tabaco, quer ocupacional. Notavelmente, em termos de distribuição geográfica, têm também em comum o facto do seu risco relativo de morte ser superior nas regiões de Extremadura e Andaluzia.


Figura 2- Tumores malignos com risco relativo de morte aumentado na região da Esxtremadura e oeste da Andaluzia. Adaptado de: 2021. Atlas of Cancer Mortality in Portugal and Spain 2003–2012. pp.1-67.


O cancro do pulmão é o que mais mata e é também aquele que tem os fatores de risco melhor estabelecidos, com destaque particular da exposição ao fumo do tabaco. É um dos cancros em que há maior diferenças na incidência homem-mulher, parcialmente explicado pelas diferenças de exposição ao fumo do tabaco. Relativamente às diferenças de diferenças de distribuição geográfica, os locais com risco relativo mais elevado na Península Ibérica os locais são a Extremadura e região oeste da Andaluzia.


Apesar de não ser um dos cancros mais frequentes, o cancro do pâncreas é um dos que tem maior mortalidade. Em 2018, a incidência de o cancro do pâncreas foi superior em Espanha (7.765 novos diagnósticos) do que em Portugal (1.619 novos diagnósticos). O risco relativo de morte por cancro do pâncreas é mais baixo em Portugal e no Sul de Espanha, havendo um claro foco de maior risco relativo na região da costa norte de Espanha (Múrcia e Valencia), em que o risco relativo varia de 1,05 a 1,30. O fator de risco melhor estabelecido para cancro do pâncreas é o tabagismo. No entanto, a semelhança nos padrões geográficos para homens e mulheres, sugere que essa distribuição espacial se deve a fatores de risco com distribuição semelhante em ambos os sexos, o que não é o caso do tabagismo. Mais ainda, os padrões de distribuição deste tumor não se assemelham aos observados para o cancro do pulmão, sugerindo a necessidade de outros fatores para explicar a distribuição.


Também o cancro da bexiga apresenta valores de risco relativo superiores em Espanha, com as regiões da Exstremadura e oeste da Andaluzia com um risco até 50% superior ao do restante território ibérico. Outros pequenos clusters localizam-se na região de Valência, Catalunha, Aragão, La Rioja, Cantábria e Astúrias. A generalidade do território de Portugal continental apesenta um risco relativo inferior a 1.


O cancro da laringe surge em 20º lugar em termos de incidência e em 18º lugar em termos de mortalidade tanto em Portugal como em Espanha. A distribuição dos focos de maior risco relativo ocorre em três clusters: um localizado na região do norte-litoral e Galiza, um segundo também no litoral nas regiões de Leão e Castela e um terceiro, com maior área de extensão no sul da Península Ibérica, compreendendo a região do Alentejo e Estremadura, Algarve e Andaluzia. As diferenças de mortalidade são parcialmente explicadas pelo consumo de álcool e tabaco, expondo a necessidade de procura de presença de carcinogéneos ambientais e ou ocupacionais específicos nestes locais.


O cancro esofágico apresenta riscos relativos de morte elevados (risco relativo superior a 1,30) no lado oeste da região norte de Portugal continental, estendendo-se de modo transfronteiriço para a Galiza (Costa Atlântica e Cantábrica) e costa de Castela e Leão. Destaca-se ainda que um risco relativo mais elevado nas mulheres, com áreas particularmente preocupantes entre Minho e Douro litoral, em que o risco relativo no sexo feminino é superior a 1,5. As diferenças de consumo de álcool e tabaco justificam apenas parcialmente os resultados, já que o padrão de distribuição geográfica nas mulheres sugere a presença de outros fatores como o excesso de peso e obesidade.


Por último, no caso da leucemia, as áreas de maior risco relativo aparecem em clusters bem circunscritos, com áreas de extensão pequenas, permitindo a identificação de municípios de alto risco. É necessária mais investigação nos concelhos de alto risco relativo para identificação de fatores de risco.


Em suma, em Portugal destaca-se os tumores do trato gastrointestinal e em Espanha aqueles que parecem estar mais dependentes de exposição a fumo (do tabaco e ocupacional). As extensões transfronteiriças de maior risco relativo de morte de determinados tumores malignos verificadas na transição Norte de Portugal - Galiza, Interior Alentejano-Extremadura e região do sotavento algarvio – oeste da Andaluzia, são de particular interesse de estudo.


A análise completa, disponível no documento “Atlas of Cancer Mortality in Portugal and Spain 2003–2012”, pode ser consultado em: https://www.isciii.es/QueHacemos/Servicios/VigilanciaSaludPublicaRENAVE/EnfermedadesCronicas/Documents/atlas/Atlas_espana_portugal.pdf



Bibliografia: 2021. Atlas of Cancer Mortality in Portugal and Spain 2003–2012. pp.1-67.


Resumido por:



Inês Morais Vilaça

Médica Interna de Saúde Publica no ACES Grande Porto VII - Gaia