Alterações Climáticas e Planos de Contingência da Saúde Pública

Os fenómenos meteorológicos extremos (ondas de calor, vagas de frio, cheias, secas, tempestades…) são uma das faces mais visíveis das alterações climáticas, sendo elevada, no dealbar deste século XXI, a carga de doença a eles associada.


Os profissionais de Saúde Pública enfrentam um enorme desafio perante esta situação. É pertinente fortalecerem, a nível local, a interdisciplinaridade saúde – ambiente.


Os fenómenos meteorológicos extremos matam e causam problemas de saúde. As alterações climáticas repercutem-se em todos os grupos etários, variando o risco com as características individuais (idade, rendimento, educação, estado de saúde, contexto social e ambiental), acesso a recursos, como os serviços de saúde, nível de exposição e capacidade de adaptação ao fenómeno em questão.


Os efeitos adversos do clima na saúde são evitáveis. A nível local, o suporte para uma adequada adaptação das populações, sobretudo nas cidades, pode sistematizar-se em três tipos de ações:

  1. Reforço da investigação e aumento do conhecimento;

  2. Comunicação do risco e consciencialização da população, com uma adequada preparação dos serviços de saúde, coordenada com sistemas de alerta meteorológico para comunicação oportuna do risco às populações e aos profissionais de saúde;

  3. Planeamento urbano, com design adequado de habitats saudáveis, áreas de sombra, expansão das infraestruturas verdes e azuis, redução das ilhas de calor nas cidades, dado o excesso de superfícies impermeabilizadas por asfalto e tipo de edificados.


Estas ações devem constar de planos de contingência, em cuja elaboração e implementação os profissionais de saúde pública têm responsabilidades.

Estes Planos devem respeitar princípios fundamentais:

  1. Acordar sobre a liderança – para coordenar a resposta entre os diversos atores e instituições durante emergências;

  2. Dispor de sistemas de prevenção e alerta, com deteção precoce de emergências;

  3. Dispor de um plano de comunicação, definindo “o que é comunicado, a quem e quando”, com avaliação posterior das intervenções efetuadas;

  4. Aconselhar as populações sobre as medidas a tomar para redução da exposição;

  5. Atender especialmente aos grupos vulneráveis da população, providenciando cuidados de saúde e acesso a abrigos, como casas residenciais;

  6. Capacitar o sistema de saúde – treino de profissionais, tratamentos farmacológicos, chamadas telefónicas ativas aos utentes, visitas domiciliárias;

  7. Providenciar com os órgãos municipais um planeamento urbano de longo prazo (urbanismo, energia, transportes);

  8. Ter presente que a vigilância, a resposta e a avaliação em tempo real são elementos essenciais numa resposta robusta da Saúde Pública.



Os aumentos de temperatura fixados em 1,5ºC pelos acordos internacionais, vão corresponder a um aumento das inundações, fogos florestais, secas e aumento das temperaturas urbanas. Estes fenómenos ocorrerão de forma recorrente e intensa, traduzindo-se numa panóplia de situações indesejáveis.


Aumentos de temperatura têm impactos físicos e também na saúde mental – aumento de suicídios, casos de violência doméstica, insónias e ansiedade.

Os Planos Locais de Saúde, integrando Planos de Contingência relacionados com os efeitos das alterações climáticas, têm de refletir estas realidades, abrangendo as dimensões da monitorização, prevenção e intervenção, prevenindo o impacto negativo que as alterações climáticas produzirão na saúde.


Deve planear-se uma estratégia de comunicação, adaptada às diversas situações de emergência. Estes Planos de Comunicação do Risco devem integrar os Planos de Contingência.

A preparação destes Planos proporciona maior confiança e controlo das populações no pico de uma emergência, dado que é percecionada pelos indivíduos como um fator importante na gestão eficaz da crise, seguindo a máxima de que “ter um plano pronto é a regra e depois estar preparado para o mudar”.


A comunicação durante uma emergência é parte integrante da gestão do risco e o seu principal objetivo é promover a resiliência das populações e orientar a sua participação numa contenção rápida, limitando a morbi-mortalidade e minimizando danos negativos na economia local.

Assim, perante uma ocorrência, devem ser envolvidos os diversos parceiros – decisores políticos, órgãos de comunicação, população em geral – sendo transparente sobre o que se sabe e o que se desconhece. Tal propicia confiança e credibilidade, com aceitação das orientações emanadas pelas infraestruturas de Saúde Pública.


Dar resposta e validar as preocupações do público, ajustando as suas perceções de risco ao risco real, permitirá obter melhores resultados na comunicação do risco.

É importante avaliar o output e o outcome dos Planos de Contingência, designadamente nos locais de maior a vulnerabilidade (caso dos lares para idosos), na utilização de serviços de saúde, na produtividade e ausências ao trabalho, nas alterações comportamentais.


Deste modo, podem sintetizar-se as principais intervenções da Saúde Pública sobre as repercussões das alterações climáticas na saúde em três vetores fundamentais:

  1. Providenciar a existência de uma regulamentação que enquadre as situações meteorológicas extremas envolvidas (ondas de calor, vagas de frio, cheias, secas, tempestades…);

  2. Atender à localização geodemográfica da emergência;

  3. Dispor de uma adequada comunicação do risco para cada emergência.


Desse modo, pode operacionalizar-se:

  1. Uma permanente advocacia da saúde com outros setores – governo, autarquias, sociedade civil, grupos económicos e empresarias;

  2. O desenvolvimento de ações intersectoriais – planos de base comunitária, planos de contingência, planeamento urbano;

  3. A capacitação da força de trabalho da saúde – abordar padrões novos e emergentes das doenças infeciosas (sintomas e tratamentos), melhorar a capacidade de diagnóstico, identificação e resposta a surtos de “novas” doenças, garantindo o fornecimento e a logística das intervenções necessárias;

  4. O empoderamento da inteligência do sistema de saúde – criação de sistemas de vigilância, deteção e alertas precoces, com informação para respostas atempadas e robustas da Saúde Pública;

  5. Tornar mais “verdes” os serviços de saúde (alimentos, energia, edificados, transportes);

  6. Desenvolver parcerias – articular com os serviços municipais, com os serviços de veterinária, para melhoria da vigilância e controlo de vetores.


As populações estão expostas direta e indiretamente às alterações climáticas, sobretudo através da mudança dos padrões meteorológicos. As suas repercussões na saúde dependerão não somente das medidas de mitigação, mas também da capacidade de adaptação das populações.


Neste contexto, é relevante a ação dos profissionais de Saúde Pública. Os Planos de Contingência surgem como um contributo importantíssimo na sua interação com os efeitos na saúde produzidos pelas alterações climáticas.




António Tavares

Médico de Saúde Publica no ACES Amadora – Lisboa e Vale do Tejo

Professor Associado Convidado na Escola Nacional de Saúde Pública