Monkeypox: passado, presente e futuro

Atualizado: 31 de out.


A infeção humana por vírus Monkeypox é uma zoonose, sendo o vírus endémico em diversos países Africanos desde 1970, havendo história de surtos nos últimos anos. O período de incubação é habitualmente de 6 a 13 dias, podendo variar entre 5 a 21 dias. A apresentação clínica é variável, sendo que a maioria dos casos têm uma apresentação com exantema, podendo existir outros sintomas como febre, astenia, mialgias, dorsalgia, adenomegalias e cefaleias. (OMS, 2022)


A transmissão de Monkeypox ocorre através de contacto das superfícies cutâneas com lesões, e também por via respiratória. Entre os fatores facilitadores de transmissão, incluem-se práticas sexuais como por exemplo sexo em grupo, múltiplos parceiros sexuais e/ou sexo ocasional, chemsex (Bourne, 2014) (utilização de substâncias com o objetivo de facilitar, prolongar e/ou intensificar a experiência sexual) imediatamente antes ou durante as práticas sexuais) e ser trabalhador/a sexual. (ECDC, 2022)


Figura 1. Partículas do vírus Monkeypox captadas por microscopia eletrónica de transmissão. Fonte: NIAID.


Desde o início do surto de Monkeypox em países não endémicos, um total de 17 202 casos foram confirmados nos 29 países da União Europeia/Espaço Económico Europeu (EU/EEA), sendo os 5 países com maior número de casos confirmados os seguintes (dados de 25 de Agosto de 2022):

  • Espanha (6284)

  • Alemanha (3387)

  • França (2889)

  • Holanda (1136)

  • Portugal (810)

O primeiro caso neste grupo de países foi reportado em Itália, a 9 de Maio de 2022. A maioria dos casos são homens que têm sexo com homens (HSH) com idades entre os 18 e os 50 anos. (ECDC, 2022) Tal como noutros surtos, é importante apostar na deteção precoce, isolamento dos casos e identificação de contactos, e profilaxia pré e pós exposição.


Em Portugal, os primeiros casos atípicos de úlceras genitais foram identificados a 3 de maio de 2022, e os primeiros casos confirmados a 17 de maio de 2022. A orientação 004/2022, publicada a 31 de maio de 2022 e atualizada a 6 de Julho pela Direção-Geral da Saúde (DGS) detalha os procedimentos para abordagem dos casos de infeção humana por vírus Monkeypox, nomeadamente a definição de caso, a notificação, o diagnóstico, a prevenção da transmissão e as medidas de saúde pública.


Este surto também representa uma oportunidade para refletir sobre questões relativas à gestão dos mesmos, não só relacionadas com este surto em particular, mas pensando na resposta a surtos futuros. Gostaria de salientar os seguintes aspetos:


1. Colaboração com organizações comunitárias

As organizações comunitárias que desenvolvem o seu trabalho com foco em populações específicas (como é o caso dos HSH, que estão a ser desproporcionalmente afetados este surto de Monkeypox) são aliados importantes não só em todas as etapas de gestão do surto, mas também na sua deteção (ver sistemas de vigilância) e controlo, nomeadamente na profilaxia pré e pós exposição. Estas organizações conhecem as populações-alvo, têm conhecimento das estratégias e abordagens com maior probabilidade de sucesso, e quando prestam serviços clínicos, podem também contribuir para a deteção e gestão de casos e respetivos contactos. Assim sendo, é importante refletir sobre a necessidade de promover a colaboração contínua, de forma a desenvolver respostas adaptadas no futuro.


2. Sistemas de vigilância

É também importante refletir sobre os sistemas de vigilância, particularmente a vigilância sindrómica. Os profissionais dos serviços de saúde devem ter acesso a informação relativamente aos mecanismos de reporte e notificação, não só das doenças de notificação obrigatória, mas também de conjuntos de sintomas e apresentações clínicas que não se enquadram em doenças habitualmente diagnosticadas nesse contexto.


3. Comunicação em saúde

Para além dos aspetos já mencionados, é importante unir esforços para que a comunicação com a sociedade civil seja efetuada com celeridade, de forma clara e concisa e não discriminatória-o que apesenta muitos desafios. No caso específico de Monkeypox, é fulcral centrar a comunicação de risco em comportamentos (por exemplo, ter sexo com homens e identificar-se como homem) e não em orientação sexual, uma vez que nem sempre um homem que tem sexo com homens se identifica como sendo homossexual. Adicionalmente, devem ser veiculadas recomendações claras e realistas para evitar o risco de contágio, evitando tanto quanto possível julgamentos de valor ou proibicionismos, que no caso das infeções sexualmente transmissíveis são pouco eficazes..




Sofia Ribeiro

Médica de Saúde Pública






Referências