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Cancro colorretal - epidemiologia e estratégias de prevenção

O cancro colorretal (CCR) é uma neoplasia maligna que afeta o cólon e o reto e constitui-se como um problema de saúde pública em Portugal. A sua elevada incidência (é o 2º cancro mais frequente, após o da mama), bem como a sua mortalidade (é a 5ª causa de morte no país e o 2º cancro mais letal, após o do pulmão), justificam concentrar as estratégias oncológicas nacionais neste tumor. Esta relevância é reforçada pelo facto de 46% dos casos serem considerados potencialmente evitáveis e pela existência de um programa de rastreio de base populacional já implementado no país. Compreender os padrões epidemiológicos é fundamental para orientar e aperfeiçoar as estratégias de prevenção, rastreio e diagnóstico precoce, com o objetivo de inverter a tendência atual da doença.


Em Portugal, no ano de 2022, registaram-se 7.821 novos diagnósticos, o que corresponde a 21 casos por dia. Este número anual equivale, em termos populacionais, a diagnosticar a totalidade dos habitantes de concelhos como Melgaço ou Ferreira do Alentejo. Verificou-se um aumento global da taxa de incidência padronizada em 50,5% face ao ano 2000, mais acentuado nos homens (54,1%) do que nas mulheres (46,4%).


A distribuição etária dos doentes tem-se alterado ao longo do tempo. A proporção de casos na faixa dos 50 aos 74 anos diminuiu (de 62,1% em 2000 para 55,3% em 2022), enquanto a dos doentes com mais de 75 anos aumentou (de 30,1% para 36,9%). Já na população com menos de 50 anos, após redução até 2015 (para 5,8%, com 495 casos), a proporção voltou a subir para 7,8% (540 casos) em 2022, o que reflete flutuações na incidência neste grupo etário.


A mortalidade também aumentou, de 2.861 óbitos em 2000 para 3.597 em 2022 (10 mortes/dia), com um plateau relativo desde 2012 e um decréscimo acentuado nos últimos dois anos. A taxa de mortalidade subiu de 27,7 para 34,2 por 100.000 residentes, apesar de ter descido nos últimos 5 anos, após um pico de 37,8 em 2016.


Esta evolução reforça a necessidade de medidas preventivas e de diagnóstico precoce.




Por um lado, quase metade dos casos são evitáveis com a modificação de fatores de risco como tabaco, álcool, sedentarismo, obesidade e má alimentação. Para tal, é necessário que existam em Portugal políticas públicas de saúde capazes de promover a modificação destes fatores. Apesar do sucesso da Lei do Tabaco, implementada em 2007, que permitiu uma redução efetiva de 46,7% no consumo de tabaco, continuam a faltar políticas públicas semelhantes dirigidas a outros comportamentos de risco, nomeadamente o consumo de álcool.


Para os casos não preveníveis, o rastreio populacional é fundamental por permitir um diagnóstico precoce. No entanto, dados de 2024 mostram que o programa abrange apenas 89% do território, com uma taxa de cobertura populacional de 33% e adesão de 50%. Esta baixa participação, estagnada nos 30% há anos, limita drasticamente o impacto do programa. Um estudo de revisão das estratégias para aumentar a adesão ao rastreio do CRC revelou que apesar de uma abordagem sistémica (com redução de obstáculos ao acesso e monitorização do programa) ser importante para esse objetivo, o contacto interpessoal com o profissional de saúde surge como principal determinante da participação dos utentes. Esta conclusão revela a importância de uma (re)organização dos Cuidados de Saúde Primários que permitam dar resposta a esta necessidade identificada.


O CRC representa, assim, um fardo significativo para a saúde em Portugal, caracterizado por uma alta incidência e mortalidade, mas também por um enorme potencial de prevenção. O sucesso da sua prevenção e controlo depende da conjugação de esforços, nomeadamente da Saúde Pública, para expandir a cobertura e resolver as assimetrias regionais do programa de rastreio, e para implementar políticas públicas que possam mitigar os fatores de risco comportamentais e ambientais.


Bibliografia:

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  • Carvalho E. F. (2024). O Impacto da Lei do Tabaco sobre o Consumo de Cigarros em Portugal [Dissertação de mestrado, Faculdade de Economia da Universidade do Porto]. Repositório Aberto da UP. https://hdl.handle.net/10216/162863

  • Equipa do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (2025). Avaliação e monitorização dos rastreios oncológicos de base populacional – Portugal 2024. Direção-Geral da Saúde. Lisboa.

  • Equipa do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (2025). Programa Nacional para as Doenças Oncológicas: Desafios e Estratégias. Direção-Geral da Saúde. Lisboa.

  • Kew, G. S., & Koh, C. J. (2020). Strategies to Improve Persistent Adherence in Colorectal Cancer Screening. Gut and liver, 14(5), 546–552. https://doi.org/10.5009/gnl19306

  • RON. Registo Oncológico Nacional de Todos os Tumores na População Residente em Portugal, em 2022. Instituto Português de Oncologia do Porto Francisco Gentil - EPE, ed. Porto, 2025.



Teresa Garcia

Instituto Português de Oncologia do Porto: Serviço de Epidemiologia & Grupo de Epidemiologia, Resultados, Economia e Gestão em Oncologia do Centro de Investigação





 
 
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