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Hantavírus: lições para a Saúde Pública

A pandemia de COVID-19 reforçou a necessidade de vigilância contínua de agentes zoonóticos com potencial epidémico e pandémico. Entre estes, os hantavírus constituem uma ameaça relevante, embora frequentemente menos mediatizada, até à ocorrência recente de um surto de doença respiratória aguda grave a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, notificado à Organização Mundial da Saúde (OMS) a 2 de maio de 2026. Este episódio trouxe novamente para o debate internacional a importância da preparação para doenças emergentes de origem zoonótica e a necessidade de respostas coordenadas em Saúde Pública.


Distribuídos globalmente e associados a reservatórios animais persistentes, os hantavírus ilustram os desafios contemporâneos da interface entre saúde humana, animal e ambiental. Diferentes espécies estão associadas a distintas manifestações clínicas e distribuições geográficas. Na Europa, predominam os casos de febre hemorrágica com síndrome renal, sobretudo causados pelo vírus Puumala, enquanto nas Américas se destacam os casos de síndrome cardiopulmonar por vírus Andes na América do Sul e pelo vírus Sin Nombre, frequentemente associados a elevada letalidade.


Embora a transmissão pessoa-a-pessoa seja rara, o potencial epidémico destes vírus resulta da sua ampla distribuição ecológica, da proximidade crescente entre humanos e reservatórios animais e das alterações ambientais que favorecem o contacto entre espécies. A OMS tem alertado para o aumento do risco de emergência de zoonoses associado às alterações climáticas, desflorestação, urbanização, alterações no uso do solo e perda de biodiversidade. Estas transformações ecológicas modificam os habitats naturais dos reservatórios animais e potenciam novas oportunidades de transmissão aos seres humanos, e alargando as áreas de circulação viral para além das originais endémicas.



Os hantavírus representam um exemplo paradigmático da abordagem “One Health, com a dinâmica de transmissão fortemente dependente de fatores ecológicos e climáticos que influenciam as populações de roedores. Invernos mais amenos, alterações nos padrões de precipitação e fenómenos extremos podem favorecer o aumento da densidade dos reservatórios e expandir áreas de circulação viral. Apesar da baixa incidência documentada na Europa, a vigilância epidemiológica e a deteção precoce permanecem essenciais, especialmente num contexto de alterações climáticas globais e mobilidade populacional crescente, que facilitam a disseminação de forma contínua e prolongada.


A emergência de novos agentes zoonóticos, mesmo inicialmente limitados geograficamente, pode exercer grande pressão sobre os sistemas de saúde e ter impacto económico significativo, requerendo respostas rápidas de Saúde Pública, visando reduzir o impacto das doenças emergentes na sociedade e nos ecossistemas.


Os hantavírus recordam-nos que a próxima ameaça pandémica poderá emergir silenciosamente na interface entre humanos, animais e ambiente. Num mundo tão interligado, é, pois, necessário reforçar as capacidades de antecipar riscos, investir em sistemas robustos de deteção precoce, avaliação de risco e garantir respostas coordenadas, sustentadas pela ciência e pela cooperação internacional.




Mariana Ferreira

Serviço de Saúde Pública

Unidade Local de Saúde de Gaia e Espinho





 
 
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