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Imunização contra o Vírus Sincicial Respiratório: da implementação à avaliação

há 7 horas
4 min de leitura

O vírus sincicial respiratório (VSR) constitui uma causa importante de doença respiratória e de internamento no primeiro ano de vida, com maior risco de doença grave nos primeiros seis meses [1]. A sua relevância vai para além das crianças com fatores de risco: num estudo realizado em cinco países europeus, cerca de um em cada quatro bebés saudáveis de termo teve uma infeção por VSR durante o primeiro ano de vida, e um em cada 56 precisou de ser internado por doença associada ao vírus [2].


A imunização passiva com nirsevimab, um anticorpo monoclonal de longa duração, veio mudar o panorama, abrindo caminho para uma nova abordagem preventiva [1]. No ensaio HARMONIE, a eficácia contra o internamento por infeção respiratória baixa associada ao VSR foi de 83,2% [3]. Em contexto de implementação, um estudo realizado em 15 urgências pediátricas espanholas observou uma redução de 59,2% dos episódios de bronquiolite em crianças até aos seis meses, no pico epidémico de 2023/2024, face à média dos períodos homólogos das épocas anteriores [4].


Em Portugal, as campanhas de vacinação sazonal contra o VSR iniciaram na época de 2024/2025, tendo evoluído em todas as épocas que se seguiram. O grupo A, inicialmente constituído pelas crianças nascidas entre agosto de 2024 e março de 2025, passou a abranger, na época seguinte, os nascidos desde junho de 2025 [1]. Na campanha atual, passaram a incluir-se neste grupo todas as crianças nascidas entre 1 de abril de 2026 e 31 de março de 2027, completando assim uma coorte anual de nascimentos [5]. Considerando ainda que os nascidos entre janeiro e março de 2026 já estavam abrangidos pela campanha anterior, deixa também de existir uma interrupção entre as coortes elegíveis de campanhas consecutivas [1,5].


A presente campanha decorre entre 16 de setembro de 2026 e 31 de março de 2027. A imunização dos recém-nascidos durante este período realiza-se nas maternidades, incluindo as dos setores privado e social, enquanto que as crianças nascidas entre abril e 15 de setembro são imunizadas nos cuidados de saúde primários, numa ação de repescagem ativa que dura até 30 de outubro. Mantêm-se as indicações específicas para os grupos de risco, incluindo os prematuros nascidos antes das 34 semanas, entre janeiro e março de 2026, que ainda não tenham sido imunizados. Nas crianças com patologias de risco, como cardiopatias hemodinamicamente significativas, doença pulmonar crónica ou imunodeficiência grave, a proteção pode estender-se à segunda época de VSR, e com doses mais elevadas de anticorpo, de acordo com os critérios previstos na norma. A vacinação contra o VSR na gravidez, pelo menos 14 dias antes do parto, dispensa o nirsevimab no recém-nascido, salvo nas exceções previstas na norma [5].



Na ULS São João, administramos 1858 doses de nirsevimab em 2024/2025, e 2363 em 2025/2026, um aumento de cerca de 27% entre épocas [6]. A organização da campanha implica articulação próxima entre a Maternidade, os serviços de Neonatologia e de Pediatria, e as unidades dos Cuidados de Saúde Primários, bem como da Equipa Local de Vacinação e dos serviços Farmacêuticos, quer na identificação e encaminhamento dos elegíveis, quer na previsão das necessidades e disponibilização do anticorpo.


Importa ter em consideração que o Hospital de São João, enquanto hospital terciário, recebe crianças com patologia mais complexa e provenientes de outras áreas geográficas, para além da população residente na área de abrangência da ULS [7]. A avaliação da atividade e dos resultados deve, por isso, considerar esta realidade assistencial e os circuitos de referenciação.

Nos internamentos por doenças do aparelho respiratório em crianças com menos de um ano, observaram-se, no período de outubro a março, reduções muito expressivas: cerca de 20% em 2024/2025 e 44% em 2025/2026, face às três épocas anteriores à campanha, considerando a evolução nas crianças dos um aos quatro anos como referência [8].


Deste modo, o trabalho de acompanhamento e monitorização da imunização contra o VSR é essencial para identificar, durante a própria campanha, grupos com menor acesso, oportunidades de imunização por recuperar e necessidades de apoio às unidades e serviços, bem como para acompanhar a evolução dos resultados em saúde que se pretende alcançar. A disponibilidade de informação em tempo útil permite ajustar a intervenção às necessidades identificadas, contribuindo para uma maior equidade no acesso e para a melhoria contínua da organização da campanha.


A implementação do VACINAS 2.0 que ocorreu neste ano representa, neste contexto, uma franca oportunidade de melhoria e de facilitação do acompanhamento em tempo real das inoculações. A disponibilização do seu módulo de monitorização, ainda aguardada, permitirá tirar maior partido da informação registada e apoiar o trabalho das equipas locais. Constitui, assim, um passo importante na aproximação ao que seria desejável de um sistema de informação próprio e vocacionado para a atividade das Unidades de Saúde Pública, capaz de apoiar não apenas o registo das intervenções, mas também o seu planeamento, acompanhamento e avaliação.


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Referências:

[1] Direção-Geral da Saúde. Vírus sincicial respiratório. In: Livro Azul de Vacinas. Parte 3: Doenças evitáveis por vacinação. Capítulo 43. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2026. https://www.dgs.pt/ficheiros-de-upload-2013/43-virus-sincicial-respiratorio-set-2026-pdf.aspx 

[2] Wildenbeest JG, Billard MN, Zuurbier RP, Korsten K, Langedijk AC, van de Ven PM, et al. The burden of respiratory syncytial virus in healthy term-born infants in Europe: a prospective birth cohort study. Lancet Respir Med. 2023;11(4):341-53. doi:10.1016/S2213-2600(22)00414-3.

[3] Drysdale SB, Cathie K, Flamein F, Knuf M, Collins AM, Hill HC, et al. Nirsevimab for prevention of hospitalizations due to RSV in infants. N Engl J Med. 2023;389(26):2425-35. doi:10.1056/NEJMoa2309189.

[4] Andina Martínez D, Claret Teruel G, Gijón Mediavilla M, Cámara Otegui A, Baños López L, de Miguel Lavisier B, et al. Nirsevimab and acute bronchiolitis episodes in pediatric emergency departments. Pediatrics. 2024;154(4):e2024066584. doi:10.1542/peds.2024-066584.

[5] Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 004/2026, de 02/09/2026: imunização sazonal contra o vírus sincicial respiratório em idade pediátrica: outono-inverno 2026-2027. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2026. https://www.dgs.pt/normas-orientacoes-e-informacoes/normas-e-circulares-normativas/norma-n-0042026-de-02092026-campanha-de-imunizacao-sazonal-contra-o-virus-sincicial-respiratorio-vsr-em-idade-pediatrica-outono-inverno-2026-2027-pdf.aspx 

[6] Extrações da plataforma BI-VACINAS em 17/08/2026: imunização contra o VSR, épocas 2024/2025 e 2025/2026.

[7] Ministério da Saúde. Rede de referenciação hospitalar: pediatria e neonatologia. Lisboa: Ministério da Saúde; 2026. https://www.sns.min-saude.pt/wp-content/uploads/2026/05/Rede-de-Referenciacao-Hospitalar-em-Pediatria-e-Neonatologia_2026-Despacho-de-Aprovacao-MS.pdf 

[8] Serviço Nacional de Saúde. Portal da Transparência: morbilidade e mortalidade hospitalar.. Dados extraídos em setembro de 2026; análise do autor. transparencia.sns.gov.pt

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Luís Renato Figueiredo

Médico Especialista em Saúde Pública

Coordenador Local de Vacinação da Unidade Local de Saúde São João





 
 
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