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Dengue: prevenção, vacinação e novas estratégias de controlo

O Aedes aegypti apresenta dimorfismo sexual, mas apenas as fêmeas são hematófagas, alimentando-se de sangue humano ou de outros vertebrados, o que permite o desenvolvimento dos ovos e a transmissão de doenças como Dengue, Zika, Chikungunya e Febre amarela. O ciclo de vida inclui ovo, larva, pupa e adulto, podendo completar-se em 7-10 dias. Na Madeira, o clima ameno permitiu a adaptação e persistência desta espécie desde a sua deteção em 2005 [1].


Entre 2012 e 2014 ocorreu um surto de Dengue na ilha da Madeira. Segundo o relatório do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), o surto iniciou-se a 3 de outubro de 2012, com os primeiros casos autóctones. Este foi o primeiro surto significativo de Dengue na União Europeia em várias décadas, contando com mais de 2000 casos prováveis e 1000 casos confirmados. Apesar do elevado número de casos, não foram registados óbitos nem formas graves da doença. Para controlar o surto foram implementadas medidas de vigilância epidemiológica, controlo do vetor, campanhas de informação à população e cooperação internacional, com apoio técnico do ECDC [2].


O controlo químico desta espécie apresenta algumas limitações devido à resistência do mosquito a vários inseticidas. Em 2009, testes realizados pela Organização Mundial da Saúde demonstraram elevada suscetibilidade da população de Aedes aegypti ao malatião, com uma taxa de mortalidade de 99%, mas forte resistência ao DDT e à permetrina, bem como resistência considerável à deltametrina [2].


Perante este contexto, torna-se necessário desenvolver estratégias integradas que incluam (1) a prevenção da picada do mosquito e a redução da sua população, (2) a diminuição da morbilidade e mortalidade associadas à Dengue e (3) a implementação de abordagens que reduzam a competência vetorial do mosquito, ou seja, a sua capacidade de transmitir o vírus.



1. Prevenção da picada do mosquito e redução da população

O Aedes aegypti pica sobretudo durante o dia, com maior atividade no início da manhã e ao final da tarde, sendo nestes períodos especialmente importante adotar medidas de proteção. A utilização de repelentes corporais constitui uma forma de proteção individual com elevada efetividade [3].

Este mosquito pode também abrigar-se no interior das habitações, preferindo locais sombrios, pelo que a utilização de redes mosquiteiras em portas e janelas pode ser relevante para impedir a sua entrada.

A redução da população de mosquitos depende sobretudo da eliminação de criadouros. Entre as principais medidas incluem-se (1) remover recipientes que possam acumular água, como pratos de vasos; (2) tapar depósitos de água; (3) tratar piscinas com cloro; (4) manter caleiras limpas; (5) armazenar o lixo em recipientes fechados; e (6) evitar guardar pneus ou outros recipientes no exterior. Estas ações contribuem para reduzir os locais de reprodução do mosquito e limitar a sua proliferação [3].

 

2. Vacina contra a Dengue - Qdenga

A Dengue é uma doença viral causada por quatro serotipos distintos do vírus dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4), podendo evoluir para formas graves. Estima-se que cerca de 1 em cada 20 pessoas infetadas possa desenvolver dengue grave.

A vacina Qdenga, desenvolvida pela Takeda, foi criada para prevenir a Dengue e reduzir a hospitalização e mortalidade associadas à doença. Está atualmente indicada para pessoas entre os 4 e os 60 anos, independentemente da exposição prévia ao vírus. Trata-se de uma vacina viva atenuada administrada por via subcutânea em duas doses, separadas por três meses. A imunidade começa a desenvolver-se cerca de 14 dias após a primeira dose, pelo que os viajantes devem ser vacinados pelo menos duas semanas antes da exposição.

A recomendação da vacina contra a dengue na consulta do viajante na Madeira iniciou-se em 2023, tendo em conta não só a exposição em viagem, mas também a presença do mosquito vetor na Região. O aumento da proteção da população poderá constituir uma vantagem caso ocorram futuros surtos. Nos anos de 2024 e 2025 foram administradas, respetivamente, 161 e 122 doses da vacina Qdenga na Região Autónoma da Madeira.

Relativamente à sua efetividade, um estudo publicado na revista The Lancet Global Health demonstrou que a vacina apresenta proteção contra os quatro serotipos em pessoas previamente infetadas (seropositivas) e contra os serotipos DENV-1 e DENV-2 em pessoas sem infeção prévia (seronegativas). Globalmente, a vacina reduziu o risco de hospitalização em 83,3% nos seropositivos e em 73,5% nos seronegativos. A proteção contra dengue grave atingiu 90,2% nos seropositivos, embora não tenha sido possível estimar com precisão este efeito nos seronegativos [4].

Em 2025 foram também publicados dados provenientes do Brasil após um grande surto que resultou em mais de 6 milhões de casos e cerca de 6000 mortes [5]. Um estudo realizado em adolescentes entre os 10 e os 14 anos demonstrou que a vacina reduziu o risco de doença sintomática em 61,7% após duas doses e diminuiu o risco de hospitalização em 67,5% após a primeira dose [6].

Atualmente, a Qdenga é a única vacina autorizada em Portugal, após a descontinuação da vacina Dengvaxia® [7].

 

3. Redução da competência vetorial

Outra abordagem promissora consiste na redução da competência vetorial do Aedes aegypti. Um exemplo é a introdução da bactéria Wolbachia nos mosquitos desta espécie, que pode reduzir a sua longevidade e aumentar a resistência à infeção viral. Estes efeitos podem limitar a capacidade do mosquito em transmitir vírus e alterar a dinâmica de transmissão das doenças. Após a introdução da Wolbachia nos mosquitos Aedes aegypti, espera-se que esta seja transmitida às gerações de mosquitos seguintes [8].

Uma investigação publicada em 2024, intitulada Economic evaluation of Wolbachia deployments in the Madeira Island, as a Dengue control strategy, sugeriu que a implementação desta estratégia na ilha da Madeira poderia não só prevenir casos de dengue como também gerar poupanças económicas significativas.

 

Perante a presença estabelecida do Aedes aegypti na Região Autónoma da Madeira e o risco de novos surtos, a combinação de medidas de controlo do vetor, prevenção da picada do mosquito e estratégias de vacinação constitui uma abordagem fundamental para reduzir o impacto da Dengue na população.


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Referências:

[1] Mosquito Aedes aegypti na Madeira. Instituto de Administração da Saúde, Região Autónoma da Madeira. Acessível em: https://mosquitoaedes.madeira.gov.pt/

[2] European Centre for Disease Prevention and Control. Dengue outbreak in Madeira, Portugal: mission report November 2012. Stockholm: ECDC; 2012. Acessível em: https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/media/en/publications/Publications/dengue-outbreak-madeira-mission-report-nov-2012.pdf

[3] World Health Organization. Promoting dengue vector surveillance and control. Acessível em: https://www.who.int/activities/promoting-dengue-vector-surveillance-and-control

[4] Tricou V, Yu D, Reynales H, Biswal S, Saez-Llorens X, Sirivichayakul C, et al. Long-term efficacy and safety of a tetravalent dengue vaccine (TAK-003): 4.5-year results from a phase 3, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. The Lancet Global Health. 2024;12(2):e257–e270.

[5] Alves L. Brazil hopes for new vaccine to combat dengue. The Lancet. 2025;405(10481). doi:10.1016/S0140-6736(25)00445-3.

[6] Ranzani OT, Lazar Neto F, Mareto LK, Brumatti TS, Oliveira RD, Silva PV, et al. Effectiveness of the TAK-003 dengue vaccine in adolescents during the 2024 outbreak in São Paulo, Brazil: a test-negative, case–control study. The Lancet Infectious Diseases. 2025.

[7] European Medicines Agency. Dengvaxia: EPAR – Product information. Acessível em: https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/dengvaxia

[8] Fox T, Sguassero Y, Chaplin M, Rose W, Doum D, Arevalo-Rodriguez I, Villanueva G. Wolbachia-carrying Aedes mosquitoes for preventing dengue infection. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2023;2023(3):CD015636. doi:10.1002/14651858.CD015636.

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Joana Moreno

Vice-Presidente da Direção da ANMSP

USP SESARAM





 
 
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