Desinformação: saber prevenir, saber ocupar espaço

A desinformação factualmente foi e continua a ser um dos grandes inimigos com que nos cruzamos durante esta pandemia. Infodemia, como foi definida a epidemia de informação falsa ou incompleta durante um surto, ou noutra escala, uma pandemia.

Existem artigos e iniciativas muito desenvolvidas sobre este tema. Aconselharia a começar pela declaração conjunta de 20 de Setembro de 2020.


Mas em vez de percorrer os caminhos já feitos por outros, com conhecimento acumulado nas áreas da comunicação de risco, comunicação de crise, ciência comportamental, ciências da comunicação e outras áreas de saber que se têm vindo a debruçar sobre isto de vários ângulos, olhemos para as nossos determinantes enquanto especialistas de Saúde Pública.

Primeiro ponto: ocupar espaço. Ao longo da pandemia, tivemos colegas presentes nos meios de comunicação social, disponíveis para o efeito. E é assim que nos devemos manter. Muitas vezes, por falta de confiança ou mesmo desincentivo institucional a que isso ocorra, não existe predisposição de ocupação nos media, mais e menos tradicionais. Errado: a alternativa é deixar para terceiros com elevada probabilidade que não seja tão bem feito nos domínios da Saúde Pública.


Segundo ponto: estudar comunicação de risco, comunicação de crise e pressionar para mudanças culturais e institucionais que vão no sentido do que já é conhecido há décadas da forma mais indicada de comunicar. Perceber o valor do “antecipatory guidance”, pressionar para uma cultura de maior transparência de dados, exigir comunicação atempada e ajustada a diferentes públicos. Trazer para a prática da comunicação o planeamento devido em como a fazer. Não permitir posicionamentos de fecho corporativo sem o envolvimento multidisciplinar de profissionais de ciências da comunicação e da ciência comportamental.


Terceiro ponto: treinar competências. Comunicar com a imprensa exige treino e existem pessoas com mais e menos jeito para “ler” momentos e interagir com um jornalista na televisão e na rádio. Ou mesmo escrever artigos de opinião para jornais. Mas é importante começar logo no Internato a fazer isso. Mais uma vez: a alternativa é deixar para terceiros. Curiosidade neste ponto: as melhores dicas que recebi foram de dois doutorados (um de ciências de comunicação e outro de psicologia) que foram grandes companheiros nesta viagem pandémica, juntamente com o nosso colega Duarte Vital Brito, que se está a especializar de forma progressiva nesta área. Mas para completar o leque, lembro-me de uma conversa breve com um operador de câmara que me deu excelentes dicas de posicionamento corporal e linguagem não verbal. Toda a gente conta, toda a gente pode ajudar: temos de saber aproveitar o conhecimento dos outros.


Quarto ponto: levar a sério este desafio da desinformação. Pede recursos especializados e dedicação às redes sociais, assim como envolvimento de especialistas de comunicação e ciência comportamental desde o primeiro momento. Não numa espécie de último passo quando está tudo decidido. O volume do desafio é tal que precisamos de ferramentas modernas das tecnologias de informação e de inovação permanente. Não vamos lá como modelos estáticos e burocráticos de atuação: é preciso ter “epidemic intelligence” à altura dos surtos de desinformação.


Quinto ponto: passam poucos dias do dia europeu da estatística, com o mote: “Estatística, uma vacina para proteger a democracia e combater o vírus da desinformação”. Como podemos ler no artigo do Tiago Marques, a “melhor forma de a combater será criar informação fidedigna e formas de a transmitir que sejam claras e eficazes. E para isso precisamos de estatísticas oficiais fortes, atuais, transparentes e comunicadas de forma clara e eficaz”. Temos o dever

de atuar no sentido de termos mais e melhores dados. De nos envolvermos nos processos de aquisição e gestão dos mesmos e pressionarmos para uma melhor comunicação ao público, com maior transparência. Essa é uma das vacinas da desinformação: informação de confiança. Indo mais longe, perto do conceito de “inoculação”, de prevenção primária da desinformação.


Tenho a perfeita noção das limitações várias a que os Serviços de Saúde Pública foram sujeitos durante esta pandemia, começando logo nas limitações de recursos. Mas temos que fazer uma pergunta muito séria, além da espuma dos dias: queremos mesmo deixar o país menos preparado para uma próxima pandemia e os desafios globais que se avizinham? Num artigo da Atlantic, destacava-se o ciclo “pânico-negligência” associado à história das pandemias nos Estados Unidos – resumindo: atrapalhação na resposta pela emergência com erros, seguido de acalmia e negligência nas reformas necessárias a seguir.


A altura para mudar é agora. Enquanto a inércia não reconquista o seu território. Devemos isso às futuras gerações. Um obrigado a todos os profissionais de Saúde Pública pelo serviço e, em especial, aos internos de Saúde Pública a quem provavelmente nunca será reconhecido devidamente o papel instrumental no combate pandémico. Também lhes caberá carregar um estandarte de maior prática da comunicação no seu quotidiano para os Serviços futuros.


Bernardo Gomes

Médico de Saúde Pública

ACES Entre Douro e Vouga I

Docente convidado do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto

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