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Condição pós-COVID-19

Atualizado: 30 de jun. de 2022

A condição pós-COVID-19 é definida pela Direção-Geral de Saúde “pelo espetro de sintomas que ocorre em pessoas com história provável ou confirmada de infeção por SARS-CoV-2, (...), habitualmente 3 meses após início da fase aguda e com, pelo menos, 2 meses de duração. Os sintomas podem desenvolver-se durante ou após a infeção aguda por SARS-CoV-2, apresentam impacto na qualidade de vida da pessoa afetada e não são explicados por diagnóstico alternativo” (1). Encontram-se descritos mais de 50 sintomas ligados a esta condição, nomeadamente cardiovasculares, respiratórios, musculoesqueléticos, neurológicos, neuromusculares, neurocognitivos, psicológicos, sistémicos, gastrointestinais, entre outros (2,3). Os mais frequentes são a fadiga, dificuldades respiratórias, alterações do olfato e paladar, cefaleias, dor torácica, alterações da concentração e memória (4).


Várias meta-análises reportaram mais de 50% de indivíduos a apresentarem pelo menos um sintoma da condição (3,4). Estimativas mais conservadoras, nomeadamente restritas a estudos de base populacional ou com comparador, apontam para uma frequência entre os 10 e 20% (4). A idade, sexo feminino, gravidade da doença aguda, comorbilidades e obesidade foram descritos como fatores de risco (4). A heterogeneidade de resultados pode ser explicada por (4):


Heterogeneidade na definição e medição da condição – O termo condição pós-COVID-19 foi proposto em 2020 e a definição atualmente utilizada foi em outubro de 2021. Contudo, é possível encontrar mais de uma dezena de termos para esta condição (“COVID longa” é um dos mais frequentes) (5). Por outro lado, os estudos publicados medem os sintomas com recurso a instrumentos não padronizados.

Grupos estudados e ausência de comparadores – A maioria dos estudos foca-se em indivíduos hospitalizados e sem comparador. Estes estudos podem sobrestimar a frequência da condição.

Início e tempo de seguimento – Vários estudos descrevem apenas os sintomas após o diagnóstico de COVID-19, não sendo possível excluir a sua existência prévia.

Efeito da vacinação – Evidência inicial aponta para uma redução do risco de condição pós- COVID-19 em indivíduos vacinados previamente e redução de sintomas em indivíduos com condição pós-COVID-19 vacinados após o desenvolvimento da mesma (6).

Variantes – A frequência da condição pode variar de acordo com a variante em circulação.


A fisiopatologia da condição também não é totalmente compreendida. Foram propostos três grandes mecanismos: i) persistência da resposta inflamatória; ii) fenómenos de autoimunidade; iii) persistência viral (7). Atendendo à diversidade de apresentação e possíveis mecanismos, persiste a dúvida se a condição pós-COVID-19 constitui uma ou múltiplas condições.


O impacto na qualidade de vida é reconhecido e vários estudos reportam alterações na vida social, familiar e laboral. Nesta última verificaram-se ausência prolongadas do trabalho, necessidade de redução de cargas de trabalho e adaptação de funções (4). A evolução da condição permanece por caracterizar. Um estudo recente reportou manutenção de pelo menos um sintoma em 85% dos indivíduos um ano após o diagnóstico (8). Esta frequência pode encontrar-se sobrestimada, mas indica persistência por longos períodos de tempo.


A condição pós-COVID-19 é assim uma condição ainda em estudo, com provável impacto em termos de saúde pública. As estimativas mais otimistas apontam para uma frequência de 10% a 20%, sendo superior em indivíduos com necessidade de internamento e menor em indivíduos vacinados. O impacto na qualidade de vida dos doentes e a necessidade de resposta dos serviços de saúde é consensual. Estudos futuros permitirão clarificar a frequência, características e evolução da condição.




Andreia Leite

Médica de Saúde Pública e Professora Auxiliar na Escola Nacional de Saúde Pública





Referências

  1. Direção-Geral da Saúde. Norma 2/2022 – COVID-19: Condição pós-COVID-19. 2022 [acesso a 16 maio 2022]. Disponível em: https://www.dgs.pt/normas-orientacoes-e-informacoes/normas-e-circulares-normativas.aspx.

  2. Michelen M, Manoharan L, Elkheir N, Cheng V, Dagens A, Hastie C et al. Characterising long COVID: a living systematic review. BMJ Global Health. 2021;6(9):e005427.

  3. Lopez-Leon S, Wegman-Ostrosky T, Perelman C, Sepulveda R, Rebolledo P, Cuapio A et al. More than 50 long-term effects of COVID-19: a systematic review and meta-analysis. Scientific Reports. 2021;11(1).

  4. Nittas V, Gao M, West E, Ballouz T, Menges D, Wulf Hanson S et al. Long COVID Through a Public Health Lens: An Umbrella Review. Public Health Reviews. 2022;43.

  5. World Health Organization (WHO). A clinical case definition of post COVID-19 condition by a Delphi consensus. 2021 [acesso a 2022-04-30]. Disponível em: www.who.int/publications/i/item/WHO-2019-nCoV-Post_COVID19_condition-Clinical_case_definition-2021.1.

  6. UK Health Security Agency. The effectiveness of vaccination against long COVID - a rapid evidence briefing. 2022 [acesso a 2022-05-16]. Disponível em: ukhsa.koha-ptfs.co.uk/cgi-bin/koha/opac-retrieve-file.pl?id=fe4f10cd3cd509fe045ad4f72ae0dfff

  7. Brodin P, Casari G, Townsend L, O’Farrelly C, Tancevski I, Löffler-Ragg J et al. Studying severe long COVID to understand post-infectious disorders beyond COVID-19. Nature Medicine. 2022;28(5):879-882.

  8. Tran V, Porcher R, Pane I, Ravaud P. Course of post COVID-19 disease symptoms over time in the ComPaRe long COVID prospective e-cohort. Nature Communications. 2022;13(1).


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